Quando Constância era porto, havia nas margens dos rios muitos barcos em construção e outros em reparação.
O Calafate(1), em conjunto com outros homens ocupavam-se no trabalho de reparação e construção dos barcos. Os estaleiros de Constância foram escola de bons mestres, dos mais sabedores da arte que havia por todo o Tejo, e das suas mãos saíram muitos botes e varinos, alguns de grande tonelagem, que iam para outros portos, sobretudo a jusante. E até para Espanha foram, Tejo arriba até Toledo, quando a navegação se fazia sem o embaraço das barragens nem o assoreamento dos rios.
Desde os oito anos de idade que Hermínio Bento trabalhou nas embarcações, que continuamente subiam e desciam os rios, aos 60 anos começou então a dedicar-se às réplicas dos barcos em miniaturas, que ao longo da sua vida tanto o cativaram. Um a um foi-lhe ganhando o jeito a ponto de uns anos mais tarde vir a dar cursos de formação, de forma a dar continuidade ao trabalho por ele iniciado.
Nos dias de hoje, já há pouca gente a trabalhar neste tipo de artesanato, o Sr. Hermínio faleceu e os seus aprendizes foram a pouco e pouco desistindo da tarefa exigente que é a construção de réplicas de barcos regionais.
Alguns exemplos de réplicas: (sendo o varino o mais típico)
Lancha – Tinha o fundo chato, a proa em bico, a popa cortada a direito e podia ser movida a vela, a remos e à vara.
Este barco era utilizado na pesca perto da Vila de Constância, sendo necessários nesta actividade dois pescadores, um remava e outro lançava e recolhia as redes.
Batelão – É mandado construir pela Câmara Municipal em 1950, para fazer a ligação entre as duas margens do rio Tejo, transportando automóveis e pessoas.
Era uma embarcação manobrada por três homens, um ficava ao leme e os outros dois nos remos ou nas varas. Tinha um comprimento de cerca de dez metros e uma largura de três metros.
Barca de Passagem - Era uma embarcação utilizada em Constância para a passagem de pessoas, mercadorias e principalmente de animais entre as duas margens do rio Tejo.
Tinha geralmente cerca de dez metros de comprimento e três metros de largura.
Abringel – Era uma barco construído nos pinhais do rio Zêzere pelos madeireiros, tendo uma tonelagem de três a quatro mil quilos. Era uma embarcação construída em madeira pinho crua e para impermeabilizar utilizavam o pez de louro.
Este barco tinha como função seguir a madeira que vinha por flutuação pelo rio abaixo até às serrações da Praia do Ribatejo, sendo depois vendidos em Constância a baixo preço.
Lancha-Praieira – Era uma embarcação típica de pesca, com um comprimento médio de sete metros por um e meio de largura e era movida a remos ou a vela. Levava quatro pescadores, o arrais, o moço e dois camaradas.
Varino – Era uma embarcação utilizada no rio Tejo para o transporte de mercadorias para Lisboa e desta cidade para os portos ribeirinhos. Tinha uma proa arredondada, sem quilha e o fundo chato para poder navegar com pouca água. O mastro era inclinado à ré e armava uma vela de estai na proa e uma vela quadrangular, ambas de cor vermelha.
Estes barcos tinham em média, um comprimento de dezasseis metros, uma altura de quinze metros e uma capacidade de cerca de trinta e cinco toneladas.
Desalijos – Era uma embarcação de fundo chato, sem quilha, com um comprimento médio de seis metros e uma altura de cinco metros. No seu mastro armava uma vela triangular de cor vermelha e tinha uma tonelagem de cerca de sete mil quilos.
Este barco, facilmente manobrado por um só homem, tinha a função de auxiliar o varino, quando este estava carregado e não tinha água suficiente para navegar. Retirava-lhe parte da carga e acompanhava-o no seu percurso até Valada (terra de maré), aqui tornava-se a fazer o transbordo da mercadoria para o varino, este segui para Lisboa e o desalijo regressava a Constância.
(1) Nome do mestre responsável pela construção dos barcos
Por
CMC
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